Traição!
Porque as Pessoas Traem?
Inicialmente, vamos buscar
o significado desta palavra.
Para isto, consultemos o Dicionário
da Língua Portuguesa
"Novo Aurélio",
que nos apresenta as seguintes
acepções para
a palavra "traição":
[Do lat. Traditione, ‘entrega’,
por via popular.] S.f. 1.
Ato ou efeito de trair(se).
2. Crime de quem, perfidamente,
entrega, denuncia ou vende
alguém ou alguma coisa
ao inimigo. 3. Perfídia,
deslealdade, aleivosia. 4.
Infidelidade no amor. [Sin.,
nessas acepç.: traimento
(por us.) e traidoria (bras.,
SP) 5. Bras. MT Espécie
de mutirão...
Parece-me, pelo título
do tema apresentado para a
primeira Antologia mensal
da AVLLB, que este se refere
aos quatro primeiros significados
desta palavra, ora apresentados.
Em todos eles, esta palavra
traduz uma atitude ou comportamento
que é solenemente desprezado
pelo nosso rito social. No
primeiro significado, há
até mesmo a referência
a traição a
si mesmo, ou seja, o ato de
alguém ir contra os
seus próprios ideais,
princípios ou idéias,
o que implica em um enorme
trauma psicológico
e sentimento de culpa, que
o indivíduo carregará
por muito tempo, até
que consiga enfrentá-lo,
usualmente, se utilizando
da ajuda profissional de um
psicanalista ou psicólogo.
Na segunda acepção,
refere-se a uma atitude que,
em caso de situações
de guerra, será punida
com a execução
do acusado, depois de um rito
sumário. Mas, em qualquer
situação, é
um ato extremamente pérfido,
que merece um julgamento justo
perante uma corte e uma punição
exemplar. Pois como entender
que alguém se comporte
de uma forma que indica total
falta de caráter e
de princípios éticos
a nortearem a sua própria
vida? Há figuras clássicas
que personificaram tal ato,
como Judas Iscariotes, o discípulo
de Cristo que o entregou aos
seus inimigos, os sacerdotes
hebreus, com um beijo em sua
face. E, em nossa pátria,
ao traidor Joaquim Silvério
dos Reis, que entregou Tiradentes,
o Alferes mártir do
movimento separatista da Inconfidência
Mineira, aos seus julgadores
e executores, os representantes
da Coroa Portuguesa.
Há casos, entretanto,
em que tal atitude passa a
ser encorajada pelos representantes
do Estado, para preservar
a sua gestão totalitária.
Isto é comum em todos
os regimes de exceção.
Aconteceu na URSS, quando
do regime comunista, em nosso
País, no regime militar
após o golpe militar
de 1964, nos EUA quando do
período Mackhartista,
em que famosos atores cinematográficos,
como, por exemplo, o "cowboy"
John Wayne, denunciou diversos
colegas por atividades "comunistas",
o que nem sempre correspondia
a verdade. Não apenas
ele, mas diversos outros "famosos"
da época. E, assim,
muitos atores, diretores,
roteiristas, produtores, de
talento, tiveram as suas carreiras
destruídas inapelavelmente.
Muito triste, mas aconteceu,
nesta e em diversas outras
ocasiões ao longo da
História.
No período da Inquisição,
em que a Igreja se colocou
como o "Juiz Maior",
tendo por normas os seus estritos
Dogmas, julgou e condenou
algumas das mais brilhantes
inteligências de então.
Um caso famoso é o
de Giordano Bruno, um frade
que se destacava por suas
atitudes e escritos inovadores
e brilhantes e que foi torturado,
julgado e executado publicamente,
queimado vivo em uma fogueira,
pelos Tribunais da Inquisição.
Todos os considerados hereges,
bruxas, judeus etc. eram vítimas
destes abomináveis
Tribunais e a história
está repleta de tais
fatos.
Em Portugal, a Inquisição
adotou o nome de Tribunal
do Santo Ofício e estendeu
as suas inapeláveis
garras até o nosso
País, então
colônia portuguesa.
No livro "Minha terra:
suas lendas e seu folclore",
de Oliveira Mello, há
um capítulo intitulado
"Irmandade das Almas",
que relata as terríveis
ações do Tribunal
do Santo Ofício em
Paracatu, Minas Gerais, pois
esta cidade é o tema
central deste livro. Neste
capítulo, são
dados "nomes aos bois",
e a constituição
do Tribunal do Santo Ofício
nesta cidade é descrita,
sendo, por exemplo, o "chefe
das torturas", o Pe.
Manuel Gomes Bravo. São
descritos os crimes contra
a Igreja e contra a Coroa,
e o mais interessante: "esses
crimes eram imputados somente
a pessoas detentoras de fortuna".
A sede do Tribunal do Santo
Ofício foi edificada
atrás do templo da
matriz de Santo Antônio
de Paracatu. "Lá
desapareceram Da. Escolástica
de Moura e seu filho João
Correa de Moura, sacerdote
e doutor em medicina, ricos
proprietários de ouro
em São Gonçalo.
Por maldosa denúncia,
sem prova alguma, foram presos
e consumidos para sempre nas
masmorras ali existentes........."
Dois carrascos, pertencentes
à Irmandade das Almas,
eram temidos em meio à
população pelos
seus atos inescrupulosos:
Sinhá Andreza, com
residência na rua do
Córrego e Dionísio
Mal-Casado, que deu seu nome
ao beco onde morava, hoje
extinto, na rua Manoel Caetano."
........."Contudo, mais
temível era a Sinhá
Andreza, mulher alta, agigantada,
de feições horrendas
e muito obesa. Andava sempre
apressada e com um bordão
na mão. Vestida com
seu hábito branco,
levando a imagem do Crucificado
para ajudar a despachar os
doentes para a outra vida."
......"Entremos na casa
do enfermo Ângelo de
Sousa, em 1790, ali atrás
da Igreja do Rosário.
Lá está o velho
sapateiro, gemendo e batendo
queixo, com febre de sezão,
apanhada na Lagoa da Vargem
do Moinho. "............"Ângelo
possuía avultada economia
de ouro em pó que se
encontrava escondida em garras
debaixo da sua cama."
...........Em seguida, o autor
descreve como Sinhá
Andreza "se dirige para
junto do leito do moribundo."
.........."E foi logo
agindo. Tirou o capuz da cabeça,
arregaçou as mangas
do hábito branco e
seboso, subiu na cama e se
ajoelhou sobre o estômago
de Ângelo, já
com o corpo debilitado."..............Este
"nada mais pôde
fazer, pois dois pulsos de
aço embargaram-lhe
a voz, sufocando-o e obrigando-o
a deitar fora um palmo de
língua. Os seus olhos
ficaram estatalados como que
fora das órbitas.".............."A
estas alturas, os garrafões
de ouro já haviam desaparecido
e a família de Ângelo
nada mais podia fazer senão
chorar a morte de seu ente
querido. Este fato foi narrado
aos mais antigos pelo neto
de Ângelo, Cipriano,
rezador dos Passos, falecido
aos 90 anos de idade, em 1897."
Este apenas um exemplo, dentre
inúmeros, dos métodos
de ação da Irmandade
das Almas, braço do
Tribunal do Santo Ofício.
Já no livro "O
Santo Graal e a Linhagem Sagrada",
de Henry Lincoln, Michael
Baigent e Richard Leigh, no
capítulo II - Os Cátaros
e a Grande Heresia",
no subtítulo "A
Cruzada Albigense", conta-se
como esta Cruzada, "que
durou cerca de quarenta anos",
destruiu totalmente o principado
independente do Languedoc,
que, na época, não
fazia oficialmente parte da
França, e "possuía
uma cultura que era a mais
avançada e sofisticada
da cristandade, com a possível
exceção de Bizâncio."
" Esta cruzada ocorreu
a partir de 1209, "quando
um exército de cerca
de 30 mil homens, incluindo
cavaleiros e infantes, desceu
do norte da Europa para o
Languedoc, as montanhas a
norte dos Pirineus, onde fica
hoje o sul da França.
Na guerra que se seguiu, todo
o território foi pilhado,
as colheitas destruídas,
as cidades e vilarejos arrasados.
A população
tomou a espada. Este extermínio
ocorreu numa extensão
tão vasta que pode
bem ter constituído
o primeiro caso de genocídio
na história da Europa
moderna. Só na cidade
de Beziers, por exemplo, pelo
menos 15 mil homens, mulheres
e crianças foram mortos,
muitos no próprio santuário
da igreja.".........."O
próprio representante
papal, ao escrever a Inocêncio
I em Roma, anunciou orgulhosamente
que ‘nem idade, nem sexo,
nem posição
foram poupados.’"
Sem me estender mais, acredito
que, por estes poucos exemplos,
se tem uma idéia de
como a "traição"
pode ser considerada como
um atributo até mesmo
"louvável"
pelas autoridades constituídas,
dependendo das injunções
históricas, políticas,
culturais, religiosas e éticas
de cada época. Este
é, sem dúvida,
um fértil terreno para
os estudos sociológicos
e mesmo antropológicos.
Mas, voltando às acepções
desta palavra, quanto á
terceira, acredito que já
está subentendida no
tratamento que se deu à
segunda.
Vamos, então, ao quarto
significado, "infidelidade
no amor". Este tema,
provavelmente, seja o que
está mais em moda nos
dias que correm, sendo objeto
de programas de televisão
e de rádio, artigos
de revistas, livros de todos
os formatos e matizes, debates
de psicólogos, psicanalistas,
padres, pastores, conselheiros
matrimoniais etc. Acredito
que tudo já se tenha
falado, comentado, debatido,
escrito e alardeado sobre
este tema, até mesmo
à exaustão.
Dizer o que? Deixo a palavra
com os especialistas. Algum
motivo deve existir para que
chame tanto a atenção.
Ou seja, hoje em dia, é
muito grande o número
de casais que se separam,
em muitos casos, devido à
tão propagada "traição
conjugal". Hoje há
maior liberdade de ação,
as pessoas se deslocam com
mais facilidade, as mulheres
se tornaram mais independentes
e, muitas vezes, se multiplicam
em mil e uma atividades. As
tentações não
faltam, seja no próprio
ambiente de trabalho, em que
as mulheres ouvem "cantadas"
dos próprios chefes
e colegas, seja nas áreas
de lazer, shoppings, teatros,
cinemas, viagens etc. Hoje
há tanto o "strip-tease"
feminino como o masculino,
e tanto "garotas de programa"
como "garotos de programa".
Por outro lado, as relações
entre os sexos assumiram outros
matizes, há posições
mais auto-afirmativas tanto
de homens quanto de mulheres.
Diante do "menor vacilo",
como se diz popularmente,
cada um toma o seu caminho
e procura o seu advogado para
uma separação
amigável ou não.
Está melhor ou pior
do que antigamente? Em certos
aspectos, melhorou, em outros,
piorou. Não se pode
dar uma resposta genérica.
Acredito que todos estão
em busca de perspectivas melhores
para si mesmos, antes de tudo,
pois estamos em uma época
em que o "ego" assumiu
proporções alarmantes.
Mas, como as condições
gerais da sociedade mudaram
muito em seus aspectos econômicos,
sociais, culturais e psicológicos,
devido também à
"globalização"
e à chamada sociedade
"pós-moderna",
há um excesso de "informações"
e uma enorme escassez de "compreensão"
ou do que se costumava chamar
"sabedoria". Esta
é encontrada no silêncio
interior, em que o indivíduo
se volta para dentro de si
mesmo e busca o seu próprio
"eu", a sua própria
"alma", que, muitas
vezes, está a milhões
de quilômetros dele
mesmo. Carl Gustav Jung, o
grande psicanalista, chamava
a este processo, de "individuação".
Ele não é fácil.
Exige muito mais do que uma
mera curiosidade, mas sim
tempo, esforço, dedicação,
sensibilidade, cultura, humildade
de se saber humano e falho
por natureza. E, hoje, as
pessoas, raramente, se interessam
por isto. Querem mesmo é
privilegiada posição
social e profissional, muito
dinheiro, muito poder, vida
social intensa, viagens internacionais,
prazer em todos os aspectos
e assim por diante. E acredito
que seja por aí a resposta.
Ou seja, naquela mesma frase
no pórtico do templo
de Delfos, na antiga Grécia:
"conhece-te a ti mesmo".
Enquanto cada indivíduo
não conhecer a si mesmo,
com tudo que isto implica,
também não encontrará
felicidade com o seu parceiro
ou sua parceira. Continuará
perdido e desorientado, como
Dante "na floresta escura"
e continuarão "os
cegos a conduzirem cegos".