Sobre
Libertação e
Outros Temas (Sempre) Contemporâneos
Na TV a cabo costumam se salvar,
para quem tenta fugir do padrão
estereotipado "made in
Hollywood", o canal Eurochannel
(que parece que foi "cassado",
tendo saído do ar!?),
com os filmes e a cultura
da não tão velha
e sempre presente Europa,
marco desbravador em tantas
assuntos; a TV Cultura, com
muitos programas de pesquisa
e de entrevista séria
em diversas áreas,
entre os quais filmes brasileiros
e estrangeiros de boa qualidade;
e outros canais que trazem
entrevistas interessantes
com escritores, autores, pensadores,
assim como filmes documentários
ou semi-documentários;
não me esquecendo do
programa, na TV Senado, em
que o jornalista, escritor,
musicólogo e senador
Artur da Távola apresenta,
com um conhecimento brilhante,
todas as nuances e detalhes
da sempre empolgante música
clássica, de uma forma
clara, objetiva, atraente,
demonstrando um domínio
invulgar sobre esse assunto,
que tanto necessita ser divulgado
entre o nosso povo, massacrado
pela mediocridade que impera,
soberana, em nossas "telinhas".
Assisti, por exemplo, a um
documentário sobre
as perdas irreparáveis
dos negros norte-americanos
durante não só
o período da escravidão,
como após esse período.
Em um depoimento de uma especialista
nesse assunto, ela disse que
"a cura começa
com a purificação
(significando falar abertamente
sobre esse assunto, trazendo
ao nível consciente
tudo o que de tenebroso se
esconde no "porão"
do inconsciente), e, que,
só depois, surgirá
a auto-aceitação.
No filme "Cronicamente
Inviável", dirigido
por Sérgio Bianchi,
ficção mas quase
documentário, tamanha
a crueza das suas cenas, um
índio, entrevistado,
diz que "por sermos vítimas
de um longo processo de extermínio,
somos os mais indicados para
representarmos a individualidade
do povo brasileiro."
Um escritor afegão,
entrevistado, disse que as
diversas etnias afegãs,
por vontade própria,
em certo momento da sua história,
uniram-se, e constituíram
a sua identidade nacional.
Mas, posteriormente, a Inglaterra
e a Rússia procuraram
destruir essa conquista, dada
a importância da situação
geo-política do Afeganistão.
E é o mesmo que os
EUA procuram fazer agora.
Creio que o "processo
de purificação"
se aplica a nós também,
membros do "terceiro
mundo", vítimas,
igualmente, de cruéis
processos de exploração,
sejamos brancos, mestiços,
negros, índios, tanto
a nível coletivo como
a nível individual.
Senão, vejamos: como
se dá o processo de
deterioração
dos nossos caracteres, submetidos
à uma vil tirania psicológica,
social, ética, moral,
econômica? Descaracterizando
suas funções,
atitudes, caráter,
sua capacidade de tomar decisões,
de exercer suas opções.
E você se sente um ser
inferior, em qualquer sentido
que se possa imaginar, incapacitado
psicológica, emocional,
e, por extensão, fisicamente,
para exercer os seus poderes,
inerentes à sua própria
natureza. E não sendo
você mesmo, você
é um qualquer, desqualificado
e desclassificado perante
si mesmo, em sua essência.
E então, você
não consegue construir
seja lá o que for,
principalmente a sua vida,
os seus propósitos,
os seus fins, os seus objetivos.
Você sente-se vazio
em si mesmo, como se tudo
fosse uma mera representação
e nada tivesse realmente muita
substância. Como se
a vida fosse uma grande paródia-trágica,
insustentável e insegura.
Pois a sabotagem começou
bem lá no início,
quando nem sequer se tinha
existência como um ser.
E, assim, um estigma poderoso
é assinalado, com todo
o seu poder, inabalável
e indestrutível. E,
cada ato, cada palavra, cada
olhar, cada atitude, surge
carregado com o peso insuportável
do estigma. E, nada que se
faça conseguirá
alterar uma tal condição.
Só mesmo com um imenso
amadurecimento emocional,
se poderá enxergar
algumas aberturas concernentes
à novas visões,
em grande parte esvaziadas
dos entraves condicionantes,
estabelecidos há longo
tempo. Só a entrega
à novas atitudes descondicionadas,
sem o receio da eterna repetição
daqueles pungentes e velhos
caminhos, poderá conduzir
à uma libertação
da psique.
Prometeu ousou e acabou prisioneiro
- o preço da lucidez
é muito caro - pois
o ser lúcido propaga
a sua condição,
sem o perceber, desde bem
jovem, e se coloca assim em
sério risco quanto
à sua integridade,
por não possuir ainda
armas defensivas para conseguir
se defender dos ataques massacrantes,
impiedosos e, muitas vezes,
subreptícios, daqueles
que sobre ele detêm
algum tipo de poder.
Albert Camus, com extrema
sutileza, em um dos seus contos,
descreve a mulher que abandona
o leito conjugal na noite
fria, para viver os seus sonhos
ante a beleza da imagem do
deserto, daquele povoado,
daquele povo tão distante
de si, com costumes, cultura
e hábitos tão
diversos dos seus, mas muito
mais próximos da fonte
perene da vida... e ela se
emociona e se descobre nova
e pura na sua capacidade de
sonhar uma vida que nunca
seria a sua, mas que, no fundo
da sua alma, desejaria que
fosse...
Roman Polanski, um dos mais
criativos diretores de cinema,
ele mesmo fruto de tantas
tragédias, lançou
ao estrelato muitas grandes
atrizes, inovou com fértil
mestria em seus filmes, atuando
como diretor, produtor, ator;
recebeu inúmeros prêmios
ao longo da sua brilhante
carreira.
Ele traz a mensagem da surpresa
ao espectador: não
se iluda, vá além
das aparências, - aquele
bebê, qual a sua origem?
- o último, o nono
portal, tão buscado,
leva mesmo ao poder? - o caça-vampiros,
quem sabe não está
levando, bem junto a si, o
germe da destruição,
que tanto persegue?
PS - Após a redação
desse texto, li, com muita
surpresa e agrado, pois sou
admirador da obra cinematográfica
de Roman Polanski de há
muito tempo, que ele recebeu
prêmio no Festival de
Cannes pelo seu último
filme, "O Pianista".