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O
Transeunte
Gotas de chuva escrevem no
espelho meu rosto pálido
como a lua, não é
o meu. Ele se refletiu no
espelho durante toda uma vida.
Agora caminho no atemporal.
Estou no meu ser, na minha
mente. O meu ego se desfez.
Tento rir, consigo. De tudo
que se acumulou ao longo de
séculos. Isto é
um bom sinal. Mesmo sem alcançar
o Nirvana, pelo menos não
sou um tolo envolvido pelas
malhas sufocantes do apego.
Quantas vidas, quantas lendas,
quantas fantasias; me perdi
na estrada, me esqueci de
quem era na mata escura e
vaguei por tempos sem fim.
Do alto das árvores
tentei vislumbrar o horizonte.
Ali me quedei, pensei estar
protegido.
E o tempo, o que é
o tempo? Deixou suas marcas.
O tempo é a volta que
a Terra e a Lua dão
em torno do Sol; ele é
diferente do tempo de Saturno,
de Urano ou de Mercúrio.
Ele nos escraviza, Kronos
nos algema e algema povos
e culturas. Como nos libertarmos
dele? Como rompermos o ciclo
interminável? Libertando-nos
das projeções
da nossa mente e do nosso
ego.
Quantas imagens de anjos na
biblioteca. A imagem da minha
avó penteando o seu
longo cabelo e fazendo o coque,
seguro por grampos imensos,
e das suas risadas, feliz
quando era visitada no seu
quarto pelo menino, que eu
era. E de como ela morreu
dormindo e de como eu não
chorei em seu enterro. Ou
chorei? Não, não
chorei, pois eu não
sabia chorar, não havia
aprendido a chorar.
E eu me isolava cada vez mais
e os livros eram meus companheiros.
Mas, às vezes, eu me
cansava deles e os jogava
fora, e o meu filho os ia
empilhando no quintal, pequeno
ainda.
É que eu estava revoltado
porque nada dava certo. O
tempo ia e vinha, e nada dava
certo. Mas em minha imaginação
eu era um maestro brilhante
e regia orquestras sinfônicas,
e quem me via achava que eu
estava louco, mas eu não
estava. Era apenas o meu refúgio,
e assim eu vivi muito mais
na minha imaginação
do que na "realidade".
Mas, deixemos a filosofia
de lado.
Alguém sabe alguma
coisa? Todos sabem e ninguém
sabe: ilusões, ilusões,
ilusões. Alguém
sabe que o mundo em que ele
vive foi criado por ele mesmo?
E não chorar nem se
lamentar, culpando a, b ou
c, pois na verdade, o que
é a culpa? É
uma ilusão também.
Quem sou eu de fato? Estou
próximo de saber, ou
distante? Desvaneço-me
por um tempo e depois retorno
como o meu verdadeiro ser,
a minha verdadeira mente,
despojada de todas as suas
projeções e
ilusões.
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