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Impacto
Numa rua íngreme, um
casal, um carro estacionado,
outro descendo, um pai com
seus filhos, um sujeito encostado
a uma porta, uma mãe,
uma avó, duas meninas.
E as casas, encostadas umas
às outras, com suas
sacadas, três ou quatro
portas junto a elas, janelas
e portas ao nível do
calçamento de pés-de-moleque,
um chafariz encimado por belas
molduras e uma cruz branca.
Um sujeito magro descendo
a rua e três moças
a baterem papo frente à
uma porta esguia. Um passeio
feito de compridas e lisas
pedras.
Foi a um "dancing"
com um colega, daqueles que
quando se dançava com
uma das mulheres, tinha o
seu "carnê"
picotado por um funcionário.
Dançou algumas vezes
com uma delas, saiu dali com
ela e foram dormir juntos.
Nunca mais viu o colega, que
era de Caeté.
Quando voltava da aula de
natação no clube,
topou com um cara que lhe
pediu dinheiro, explicando
que acabara de sair da cadeia
e estava "liso".
Tinha um jeito de gente boa
e simples.
No cemitério, ali perto,
um cara vivia em um túmulo
vazio e se alimentava das
galinhas e farofas dos "despachos"
que eram colocados junto a
um grande cruzeiro, além
de beber a cachaça
que os completava.
Ele pensou que ela o compreendera,
mas se enganara. Pensou que
havia algo comum entre eles,
mas percebeu que ela estava
envolvida no jogo das aparências.
Quantos filhos ele teria,
rondando os bares pela noite?
Pensava, enquanto observava,
da janela da sala do seu apartamento,
uma moça clara, de
óculos, colocando roupas
no varal, em um apartamento
de um prédio próximo
ao seu. Um casalzinho subia
a rua de mãos dadas.
Fazia frio. Talvez aquela
moça fosse sua filha.
E, aquela outra, uma "paquera",
como se dizia então,
que não se traduzira
em namoro.
E o poder que se expandia.
Na verdade, havia uma verdadeira
"máfia",
aparentemente bem comportada.
Nas aparências, uma
beleza. Mas, por trás,
sujeira da grossa. Como iria
sair dessa? Um amigo seu já
fora condenado, na... Indonésia,
era isso? Envolveu-se, perdeu-se.
E ele? Estava sujo também.
Pequenos ruídos o assustavam.
Mantinha-se quieto, mudava-se
de residência sempre.
Deixara a mulher e os filhos
para trás. Sentia uma
dorida sensação
de liberdade.
Trazia muitas mulheres para
o seu apartamento; precisava
delas e elas dele. Uma questão
de sobrevivência mútua.
Uma delas até tentou
convertê-lo! Que piada!
E o piano daquele vizinho,
sempre com a mesma música!
E os dois cachorros grandes
do vizinho do lado. Disseram
que um deles morrera de leishmaniose,
mas o cachorro estava lá,
provocando o outro para que
brincasse com ele. Grande,
preto e... vivo!
Sentiu um calafrio na espinha...
um ruído de uma porta
cedendo à uma forte
pressão externa. Apagara
as luzes. Suava muito, agachou-se
e se escondeu atrás
de uma cômoda.
Ouviu o que lhe pareceu um
estampido seco e abafado.
Sentiu o impacto no peito
e a escuridão se tornou
completa.
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