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O
Amor e o Selo
Andreza chegou em casa cansada.
Trabalhara feito uma mula,
pensou ela, só parando
para almoçar. Descalçou
os sapatos, despiu-se, sentiu
o corpo suado e pegajoso.
O calor estava insuportável.
E o "vendaval" da
tarde! Ligou a tevê
e ouviu o noticiário:
dois mil raios haviam atingido
a cidade, trinta e seis árvores
haviam tombado, uma delas
sobre um carro! Ficou andando
nua pelo apartamento enquanto
preparava um lanche frugal.
O médico lhe recomendara
e ela também apreciava.
Como se dizia: "juntou
a fome com a vontade de comer".
Depois, assistiria às
novelas e a alguns "programas
globais". Não
possuía tevê
a cabo e também não
se importava muito, parava
pouco em casa. O telefone
e o celular tocavam sem parar:
os amigos, as amigas, os namorados,
não a deixavam em paz.
Se quisesse, sairia todos
os dias da semana. Mas não
valia a pena. O seu trabalho
era pesado, tinha que cuidar
da casa, fazer compras, trocar
e-mails, visitar sites, e
o seu salário de bancária
nem era tão alto assim.
Antes de deitar, tomaria um
banho caprichado, iria para
a cama, e só acordaria
na manhã seguinte com
o despertador tocando. Costumava
também freqüentar
uma academia, onde malhava
bastante até o suor
pingar, abundante.
Não podia se queixar
da vida. Lembrava-se da sua
cidade natal, tão pequena
lá no interior. Sacrificara-se
muito, mas conseguira. Morava
agora na capital, em um bairro
de classe média. Pagava
aluguel, mas o apartamento
até que era bom, com
dois quartos, uma sala espaçosa,
pois era daqueles mais antigos.
Os de hoje... verdadeiros
cubículos, pensava
Andreza, enquanto mastigava
uma salutar cenoura, de uma
salada com o número
de calorias exato para manter
o seu corpinho esbelto.
Ela ouviu um ruído
insistente de um helicóptero.
Chegou a janela, não
sem antes vestir uma blusa,
como medida preventiva a algum
olhar despudorado de um vizinho.
Era um helicóptero
da polícia que voava
em círculos. Andreza
fechou a janela e a persiana
e voltou ao seu lanche e,
agora, à novela que
se iniciava.
Ela estava de tal forma presa
à trama, que acompanhava
os índices do IBOPE,
que nem percebeu um ruído
em sua porta. Só desviou
os olhos da tevê quando
um vulto a surpreendeu. Abriu
a boca, arregalou os olhos,
empalideceu, quando notou
que o vulto adquiria forma
humana: um homem barbudo,
cabelos cortados rente, camisa
aberta, calça suja
e rasgada, muito suado e fedorento,
olhos fixos nela, que transmitiam
um misto de ódio, medo
e ousadia. Ele apontou um
revólver de grosso
calibre em sua direção,
dizendo:
Calada! Não se mexa!
Andreza se sentiu imobilizada
e, mesmo que ele nada dissesse,
ela não conseguiria
se movimentar. Sentiu as suas
pernas bambearem. Depois de
alguns minutos que lhe pareceram
terem durado horas, ele esboçou
um sorriso, enquanto dizia:
Vem pra cá, vem!
Andreza não se moveu.
Ele repetiu, agora em tom
bem mais alto:
Vem logo, porra! Ta esperando
o quê?
Andreza, com dificuldade,
começou a andar em
sua direção,
sem conseguir controlar o
tremor que a percorria dos
pés a cabeça.
Nisso, um estrondo e um pequeno
relâmpago flamejou a
sua direita. O sujeito balançou
por alguns segundos e, em
seguida, desabou para a frente
derrubando algumas cadeiras.
Andreza olhou para o lado,
sobressaltada, e viu um homem
de estatura mediana, roupas
comuns, com um revólver
à mão, fumegante.
Ele lhe disse;
Não tenha medo, moça.
Eu sou da polícia.
Afaste-se daí.
Ele se aproximou do corpo
caído, se abaixou,
apanhou sua arma, apalpou
sua garganta e seu peito.
Está morto, ele disse.
Um assassino frio e cruel,
além de estuprador,
disse, voltando-se para ela.
Levantou-se e caminhou em
sua direção:
Sente-se. Respire fundo. Vou
te dar um copo d’água.
Esse aí fazia parte
de um grupo que fugiu hoje
de uma penitenciária.
Estávamos atrás
deles. Um grupo muito perigoso.
Andreza começou a chorar.
Ele se aproximou dela e colocou
a mão em seu ombro.
Chore, vai te fazer bem. O
meu nome é Raul. Vou
providenciar a remoção
do corpo. Se precisar de alguma
coisa, me telefone. Tome o
meu cartão.
Andreza não conseguiu
dormir naquela noite. A todo
momento, via aquele rosto
que a olhava fixamente e,
depois, tombava ao chão.
Aquela cena ia se repetindo
sem parar e sua cabeça
doía. Ela chorou de
novo. Fechava os olhos, mas
o sono não vinha. Seus
dentes estavam cerrados tamanha
a tensão e sua mandíbula
doía também,
a incomodando.
No dia seguinte, foi trabalhar,
mas estava muito dispersiva,
o trabalho não rendeu
nada. Chegou em casa exausta.
Deixou-se cair na cama. Seus
pensamentos giravam em sua
mente como um redemoinho.
Foi quando ela lembrou-se
do policial. Como era mesmo
o nome dele? Raul, sim, era
isso. Procurou, afobada, o
seu cartão. Telefonou
para o seu celular. Raul atendeu
e lhe disse que iria ao seu
apartamento dentro de uma
hora.
Foi pontual. Demonstrou ser
bem educado e sua conversa
era agradável. Não
ficou muito tempo, percebendo
o seu cansaço, mas
combinou com ela que passaria
lá na noite seguinte.
Depois de alguns dias de encontros,
ela já se esquecera
quase por completo da cena
fatal. Raul era muito gentil,
a levava para passeios, barzinhos,
cinemas, teatros. Ela começou
a se sentir atraída
por ele. Daí para o
namoro foi um passo.
Andreza colecionava selos.
Certa noite, estava mostrando
a Raul a sua coleção
de selos. Raul demonstrava
interesse, mas o seu interesse
maior era, sem a menor dúvida,
por Andreza. Beijava o seu
rosto e o seu pescoço.
Nisso, teve uma idéia.
Pegou um dos selos repetidos,
deu uma lambida e o colou
no rosto dela. Ela ficou surpresa.
Então, ele, calmamente,
retirou o selo do rosto dela,
movimentando a sua língua
e os seus dentes. Ela deu
um sorriso amplo e o seu olhar
brilhante deu provas do quanto
o gesto dele despertara o
seu desejo. A partir daí,
esta brincadeira foi incorporada
aos seus jogos sexuais, com
inúmeras variações.
O tempo passou. Andreza e
Raul viviam juntos há
alguns anos. Haviam engordado
alguns quilos, tanto um quanto
o outro. Andreza não
entendia, pois não
havia alterado a sua alimentação
nem os seus hábitos
. O mesmo sucedera com Raul.
Até que um dia ela
leu, por acaso, no jornal
que assinava, que um estudo
do serviço de correios
do Reino Unido descobrira
que "lamber selos pode
engordar. Cada vez que se
passa a língua num
selo, está se ingerindo
seis calorias." Ela comentou
a notícia com Raul
e ambos ficaram pensativos.
O quê fazer?
Depois de alguns minutos,
sorriram entre si. Abraçaram-se
e se dirigiram para o quarto.
E, dali a pouco, estavam dando
boas risadas. A decisão
fora unânime: não
iam abrir mão do seu
divertido e erótico
jogo amoroso.
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