Já era noite e
o quadro se infiltrava no coração. Os
pés inquietos sussurravam à lua. A cachorrinha
sonhava com seus tempos de infância, em que
perseguia as pombas, tendo ao fundo um templo. O quadro
se acendia no escuro. As obras de arte ensinavam muitas
lições, pacientes, durante séculos,
e não se importavam com críticas e julgamentos.
A pequena casa era única em seu gênero
e se inaugurava. Muitos poetas corriam pelas frestas
do piso, vestidos como pintores renascentistas, rindo
e correndo riscos, ingênuos, jovens, com suas
rotundas esposas.
As pancadas de chuva atingiam as casas e os pés
dos moleques, com raios sinistros, ao entardecer.
A dúvida persistia sempre e acompanhava os
movimentos ao longo do tempo, ao som do violino que
um dia existiu e até de um violão sem
braço. O samurai tocava seu tambor com gestos
ritualísticos que acordavam os corações
das jovens mulheres, ocultas em seus quartos transparentes,
com luzes negras, sinuosas ao se movimentarem.
O grande laço cinzento, em posição
lateral, estava certo que alcançaria o apogeu
de que era merecedor. Lindas jovens africanas, com
seus deslumbrantes sorrisos, cantavam em coro sua
vitória, ao lado de portas descomunais que
se abriam às estrelas. O maior rio se avolumava
pela planície, lambia os pés do grande
mago, senhor do conhecimento, que olhava para a torre
espiralada e o futuro distante. Ele escrevia, em tábuas
de barro, as lendas que ensinavam as jovens o que
significavam os seus deslumbrantes sorrisos.
Abilio
Terra Junior
20/09/2008