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Tese
de Cordel Entrevista de
Gustavo Dourado a Patrícia
Cristina Araújo:
Tese de Doutorado em Cordel:
Universidade Federal da
Paraíba.
ENTRE
RIMAS E VERSOS:
CORDEL, A ARTE DE FAZER
HISTÓRIA
Patrícia Cristina
Araújo
Nome:
Francisco Gustavo de Castro
Dourado
Nome
Literário: Gustavo
Dourado
Pseudônimo:
Amargedom
Escolaridade:
Graduação:
Letras (UnB) Pós-Graduação:
FBT – FADM - Arte-Educação;
Educação;
Literatura; Teatro; Linguagens
Artísticas; Gestão
Pública (EG/ONU).
Idade:
44
Natural
de: Recife dos Cardosos
– Ibititá - Região
de Irecê - Chapada
Diamantina -Baixo Médio
São Francisco – Estado
da Bahia – Brasil
Local
onde mora:
Candangolândia
– Brasília - DF
Atividade
que exerce atualmente:
Professor/Educador/Escritor/Cordelista/Pesquisador/Gestor/Produtor
e Consultor Cultural.
Número
de cordéis publicados:
226 no total, sendo 222
virtuais, 6 em ofsete, alguns
em antologias, jornais,
sites, fanzines, blogs e
revistas.
*Ps
1: No prelo: Cordeli@
Antologia
poética virtual de
Literatura de Cordel Gustavo
Dourado
www.gustavodourado.com.br/cordel.htm
*Ps
2: Mais de mil cordéis
escritos e inéditos.
DATA
DA ENTREVISTA: 07 de março
de 2005.
1. Quando você começou
a escrever os primeiros
folhetos e de quem recebeu
influência?
GD
: Comecei primeiro a improvisar
por volta dos 3/4 anos,
na Bahia, quando fui alfabetizado
pela minha mãe Edelzuíta
de Castro Dourado,por meio
de histórias, causos
e cantigas e por meu pai,
Ulisses Marques Dourado,
por meio do Cordel, da Bíblia
e do Repente, ouvindo cordelistas
e cantadores de vários
estados brasileiros (principalmente
da Paraíba, Bahia,
Ceará e de Pernambuco),
lá na antiga “venda”
de meu pai (era um pequeno
empório comercial)
e em diversas feiras do
sertão da Bahia.
Os primeiros cordéis
que li foram: “Juvenal e
o Dragão”, Romance
do Pavão Misterioso,
Imperatriz Porcina e folhetos
sobre Lampião e o
Cangaço, Canudos
e Antônio Conselheiro,
Padre Cícero e Frei
Damião, adquiridos
por meu pai Ulisses, nas
feiras da Região
de Irecê...Ouvia também
muitos cordéis sobre
os Revoltosos (Coluna Prestes),
cangaceiros, jagunços,
coronéis, Horácio
de Matos, Manuel Quirino,
aboios e improvisos de meu
poeta-irmão Edenivaldo
e dos vaqueiros/boiadeiros
e dos tropeiros que circulavam
pela região. Além
dos desafios e pelejas no
rádio. O meu primeiro
cordel foi escrito/improvisado
aos 6 anos, sob influência
da Bíblia e foi uma
homenagem às Mães.
As minhas principais influências
são de repentistas,
cantadores, “reiseiros”,
rezadeiras, adivinhos, contadores
de histórias e causos
e cordelistas anônimos
que circulavam pelo sertão.
Recordo de Zé de
Duquinha, um genial repentista
sertanejo, que cantou com
vários poetas na
Rádio Nacional e
em emissoras do Rio-São
Paulo. Creio que a maior
influência seja do
príncipe do cordel,
o genial Leandro Gomes de
Barros (autor de centenas
de histórias), de
João Martins de Athaíde,
Rodolfo Coelho Cavalcante,
Cuíca de Santo Amaro
e de tantos outros cordelistas
que tinham os seus folhetos
divulgados nas feiras do
sertão do Baixo Médio
São Francisco/Chapada
Diamantina - Bahia. Dos
repentistas e artistas musicais
tenho uma vaga lembrança
de ouvir além de
Zé de Duquinha, Lourival
e Otacílo Batista,
os Irmãos Bandeira,
Pinto do Monteiro, Marcionílio
Rosa, Palmeirinha, Rota
e principalmente Luiz Gonzaga,
Zé Gonzaga, Furinchu,
dos tropicalistas Gil e
Caetano, Chico Buarque e
até Teixeirinha do
Rio Grande do Sul e muitos
sanfoneiros “arretados”,
cabras da peste do forrobodó,
como se diz lá no
Sertão... É
preciso ressaltar a presença
dos circos e dos artistas
circenses. Eles eram uma
constante na época
em que vivi lá na
Bahia (1960/1975). Tem-se
que destacar a atuação
desses artistas populares
fenomenais: palhaços,
mágicos; acrobatas;
bailarinas; mamulengueiros;
trapezistas; acrobatas,
domadores e tantos outros
que com sua graça
e maestria nos davam um
pouco de alegria e prazer.
2. Qual foi o seu primeiro
folheto? E o primeiro folheto
com tema histórico?
GD
: O meu primeiro folheto
publicado foi “Transformação
do Movimento Estudantil”(1980),
de cunho histórico,
pois destaca os momentos
mais importantes do Movimento
Estudantil, UNE, as diversas
tendências, o líder
estudantil Honestino Guimarães
e os momentos cruciais da
Ditadura Militar: O AI 5;
a repressão política,
a ocupação
da UnB, a luta pela Anistia
e pela redemocratização
do Brasil. Grande pare dos
meus cordéis são
históricos e biográficos,
outros são políticos,
jornalísticos e satíricos.
Alguns são científicos
e de cunho ficcional. Fiz
um cordel em 1980, sobre
Lula e a Greve do ABC...O
cordel sumiu lá na
UnB. Alguém “surrupiou”,
não sei com que interesse?!.
Será que alguém
adivinha? Talvez, com cunho
político, para esconder
os fatos e a triste realidade
de uma época de censura.
Era época do governo
Figueiredo e a espionagem
do ( S.N.I ) era um fato
comum e corriqueiro...Muitos
dos meus cordéis
críticos, que eu
recitava nas reuniões
e assembléias: “desapareceram”...Preciso
reescrever a maioria dos
cordéis e poemas
desse período, que
foram expropriados por agentes
da Ditadura.
3.Para você o que
é ser cordelista?
GD
: Ser cordelista é
ser um representante fiel
e legítimo da autêntica
Cultura Popular Universal:
brasileira e nordestina
por excelência. É
amar o Brasil, o Nordeste,
o Sertão, a Caatinga,
o Cangaço, Lampião,
Maria Bonita, Mulher Rendeira,
Corisco, Canudos e Antônio
Conselheiro, o forró,
o baião, o xote,
o xaxado, o São João,
o aboio e o baião
da viola, A xilogravura,
as cactáceas e xerófitas,
as romarias, o pensamento
de Paulo Freire e Anísio
Teixeira, Luís da
Câmara Cascudo, Mestre
Vitalino, Zumbi dos Palmares,
Auta de Sousa; Graciliano
Ramos, José Lins
do Rego, Rachel de Queiroz,
Gilberto Freyre, Nísia
Floresta, João Cabral
de Melo Neto, Cego Aderaldo,
Ivanildo Vilanova, Severino
Pinto, Otacílio e
Lourival Batista, Oliveira
de Panelas, Orlando Tejo
e Ariano Suassuna. Conhecer
as histórias de Trancoso,
Bocaje, Camões, dos
12 pares da França,
Antônio Conselheiro,
Padre Cícero, Floro
Bartolomeu, Jesuíno
Brilhante, Quelé
do Pajeú, Frei Damião,
Zé Pereira, Marcolino,
Juriti, Lucas de Feira,
Corisco, Antônio Silvino,
Volta Grande. É Zelar
pelo Brasil, o seu povo,
o patrimônio público
e a grandeza e história
de nosso país. Ser
cordelista é antes
de tudo: ser sertanejo e
catingueiro e fazer valer
o dito pensame do mestre
Euclides da Cunha, de que:
“O sertanejo é antes
de tudo um forte...” Um
resistente às terríveis
intempéries da política,
do tempo e do destino. É
antes de tudo ser um lutador
combatente em favor das
causas populares. É
ser intérprete das
coisas e valores da brasilidade.
É ser regional sem
esquecer de ser universal.
É ser poeta e sonhador,
acima de tudo.
4.Na sua opinião,
qual a importância
do trabalho do poeta popular
para a cultura e sociedade
brasileira?
GD:
O cordelista é o
jornalista do Povo. Ele
não deve ter compromisso
com os meios oficiais. Deve
ser um porta-voz da população
em suas reivindicações
e demandas. Deve ter total
autonomia e liberdade para
escrever sobre os problemas
e esperanças de sua
gente. O cordelista além
de inspirado e bem informado
deve ter um lado crítico
e independente. Deve ser
o defensor perpétuo
das causas populares e dos
nossos valores culturais
mais importantes e que devem
ser preservados. Tem que
ter a fibra e a estirpe
de um Antônio Conselheiro,
Luís da Câmara
Cascudo, Augusto dos Anjos,
Ariano Suassuna, Antônio
Nóbrega, Glauber
Rocha, Lima Barreto, João
Gilberto, Raul Seixas, Zé
Ramalho, Elomar e de um
Ivanildo Vilanova.
5.Qual o significado do
cordel em sua vida?
GD:
O cordel para mim é
quase tudo e de tudo um
pouco. É uma das
chamas de minha alma. Meu
espírito satírico
e picaresco. É a
quintessência e o
cerne de minha existência
literária e trajetória
poética. Nasci com
o cordel e a poesia popular
e ela teve uma grande influência
em toda a minha vida de
estudante, educador e pesquisador
da cultura popular. A cultura
do cordel vem de berço,
da infância e permeou
toda a minha vida de professor
e poeta. Foi graças
ao cordel que consegui pelo
menos uma mínima
projeção entre
os meus pares. Foi o cordel
que me abriu os caminhos
para o infinito universo
da poesia. No cordel me
alfabetizei e por meio dele
conheci a Bíblia,
as enciclopédias,
dicionários, os almanaques
e o Lunário Perpétuo.
Depois veio o baião,
o forró, o xote,
o xaxado, o cangaço
e as mil e uma histórias
dos dias e das noites do
infinito sertão,
das veredas, cacimbas, tanques,
locas, roças, terreiros,
lagoas e lajedos. Do pouco
o que sei de poesia e literatura
no geral, tudo teve início
com a magia da literatura
de cordel.
6.Quais os temas que você
mais discute em seus folhetos?
Por que?
GD
:Discuto de tudo um pouco
e um pouco de tudo, temas
diversos e variados. Educação,
realidade e cotidiano vem
em primeiro lugar. Educação
como um todo. Educação
como prática de liberdade
e libertação
do ser. Os temas sociais
e culturais estão
sempre em evidência.
As lutas populares, as reivindicações
sociais, os protestos e
reclames, seus sonhos e
acima de tudo a esperança
que o povo nutre na busca
pelo progresso, nas mudanças
e transformações
que se fazem necessárias
para mudar o mundo tão
maltratado pelos poderosos.
7.Na elaboração
de um cordel que tipo de
fonte você geralmente
utiliza, televisão,
rádio, jornais, livros
ou revistas? Por que?
GD:
Utilizo de tudo um pouco.
As fontes da tradição
popular e os caminhos já
percorridos pelos grandes
poetas e cordelistas. A
primeira fonte é
a inspiração,
o raciocínio e o
pensamento. Depois vem a
tradição oral
do sertão, dos catingueiros.
Textos dos cordelistas precursores,
como Leandro Gomes de Barros
e de mais recentes como
Rodolfo Coelho Cavalcante
e Patativa do Assaré.
A cultura oral dos contadores
de histórias, dos
causos e contos populares.
A primeira fonte é
o povo e suas ações
que se complementa com a
leitura de livros, jornais,
revistas, portais da Internet
e muita pesquisa. O rádio
sempre esteve presente em
minha vida desde menino
(jornalismo, variedades,
programas musicais) e a
TV é fundamental
pelo caráter informativo
e jornalístico. É
essencial acompanhar o noticiário
da TV, apesar de certa superficialidade
e alienação
imposta aos telespectadores
(prefiro a tv por assinatura).
Há muito controle
e manipulação
no produto final que é
apresentado aos usuários.
A tv precisa ser mais interativa
e menos alienante. Deve
servir mais ao público
do que ao privado, a interesses
mesquinhos e aos donos do
poder. Precisa estabelecer
uma visão mais independente
e crítica e não
se submeter às ordens
impostas pelos grandes anunciantes,
tubarões, mandatários
e poderosos de plantão,
que estão sempre
de tocaia.
8.Na sua opinião
qual a contribuição
do cordel para a educação?
GD:
O Cordel é importante
para a educação
em vários aspectos.
Por ser uma arte que reflete
a linguagem popular, o cordel
pode retratar o fato histórico
com mais objetividade. Durante
o massacre de Canudos, o
que ficou registrado oficialmente
foi a história dos
que cometeram a barbárie.
Apesar de Euclides da Cunha
ter transformado o seu “relatório”,
numa autêntica peça
literária e obra-prima
histórica. Além
da versão euclidiana,
o episódio de Canudos
foi retratado por vários
cordelistas e poetas. Os
pensadores populares têm
uma visão mais fidedigna
dos fatos. Essa forma de
originalidade e autenticidade
do cordel é fundamental
para a transparência
do real e de uma boa divulgação
dos fatos históricos.
Para a educação:
coerência, verdade
e transparência são
importantíssimos.
Uma educação
mentirosa, falsificadora
e alienante deturpa os fatos
e obscurece o pensamento
e o desenrolar do processo
sócio-cultural. O
cordel quando bem escrito
retrata com presteza a realidade
histórica a facilita
a compreensão dos
acontecimentos por parte
dos agentes educacionais
e da sociedade como um todo.
9. Qual o significado do
trabalho do cordelista para
a História?
GD:
O trabalho do cordelista
reflete a história
de acordo com a realidade.
A Poesia é a voz
do povo. O cordelista narra
os fatos de acordo com o
ocorrido. Muitos fatos históricos
que são relegados
pela História Oficial
recebem o merecido destaque
da Literatura de Cordel
e dos poetas populares.
Leandro Gomes de Barros
(Poeta Jornalista), com
os seus cordéis factuais
resgatou a história
de muitos acontecimentos
ocorridos no sertão
do Nordeste. Eventos que
jamais seriam narrados pela
dita História Oficial,
tão burocrática
e preconceituosa e avessa
aos feitos e causas populares.
10.
Para você, qual a
importância de se
discutir nos cordéis
temas relativos à
história local, a
história regional,
a história nacional
e a história a nível
mundial?
GD:
O cordel por ser direto
e de fácil compreensão
e por ter uma dialética
acessível ao público
permite ao poeta tratar
de temas relevantes e abrangentes.
Relato em meus cordéis
temas locais de Brasília,
da Chapada Diamantina, da
Bahia como um todo e temas
diversos do Nordeste e do
Centro-Oeste, sem esquecer
os temas do dia-a-dia do
mundo. Pesquiso a História
do Brasil e universal e
procuro dar uma visão
mais popular e holística.
É preciso que os
poetas representem os temas
de nosso povo de forma clara,
sincera e transparente,
sem rodeios e sem deturpações.
11.
De que modo você seleciona
os acontecimentos históricos
que você discute nos
cordéis?
GD:
Pela relevância dos
fatos, depois de muita análise,
leitura e reflexão.
Leio muito e procuro desenvolver
os cordéis com uma
visão mais crítica
e realista, sem entretanto
esquecer do importante tempero
da intuição
e da criatividade.
12.
Como você vê
a utilização
do cordel nas escolas?
GD:
É muito bom que se
faça uso dos cordéis
nas escolas. Se as crianças
e adolescentes tivessem
mais acesso ao cordel e
sua histórias, creio
que a educação
teria um melhor retorno.
O Cordel é muito
dinâmico e o seu uso
pode impulsionar a criatividade
dos alunos, principalmente
de crianças e adolescentes
13.
Você acredita que
o poeta popular educa através
do cordel?
GD:
O poeta popular cordelista
é um educador nato.
Ouvi isso da boca do célebre
professor Paulo Freire.
A poesia de cordel desperta,
provoca reflexão
e questionamento. Registra
a autenticidade do fato
histórico, sem a
censura “prévia”
e interna a que se impõe
a mídia e os meios
de comunicação.
O poeta popular é
um professor de notório
saber e representante primordial
de nossa gente.
14.
Como você vê
o uso do cordel no computador?
GD:
A informática, o
computador e a Internet
deram um impulso fenomenal
à Literatura de Cordel.
Criou uma nova arte e facilitou
a divulgação
e a distribuição
das idéias. Agora,
além dos folhetos
tradicionais, surgem os
“folhetos virtuais” e eletrônicos...É
preciso integrar as duas
formas. O computador é
a tipografia do cordelista.
O correio eletrônico
e os sites/sítios
é o jornal do poeta
popular, que agora tem em
suas mãos uma ferramenta
maravilhosa para desenvolver
e divulgar o seu trabalho,
com uma velocidade impressionante.
15.Para
você qual a importância
de se discutir temas relativos
à educação
na literatura de cordel?
GD:
É de importância
vital. A educação
é tudo. Ela liberta
e eleva a consciência
do ser humano. Inserir a
educação no
contexto da literatura de
cordel proporciona ao povo
e às massas o contato
com a reflexão de
temas sociais e o questionamento
da realidade objetiva. Gosto
de fazer pesquisa de temas
educacionais e transformá-los
em versos de cordel e o
retorno tem sido excelente.
Tenho tido uma ótima
receptividade do público,
que inclusive sugere temas
para serem desenvolvidos
em versos.