Estado
Embrionário
Estava em um prédio
imenso. Comunicava-se com
seu grupo através de
um aparelho portátil.
Fazia parte de um grupo: havia
um chefe e diversos membros,
todos mal encarados. Era,
na verdade, um grupo criminoso.
Ele se sentia ali como ‘um
peixe fora d’água’.
Sentia-se perseguido, com
uma sensação
de angústia premente.
Bem que gostaria de escapar
do grupo, mas como?
Todos vestiam ternos. Recebia
instruções,
que deveria seguir a risca,
ou pagaria um preço
muito alto, até mesmo
com a sua própria vida.
Mudanças estavam ocorrendo
no planeta, imprevisíveis.
Ouvia falar de fatos que o
assustavam. Tivera uma boa
formação, acadêmica,
inclusive; ainda não
entendia como entrara nessa...
fria. Sabia apenas que não
havia como escapar.
Estava atormentado, pois alguém,
de fora do grupo, um cidadão
comum, captara uma mensagem
do grupo, por acaso, e o culparam
pelo que acontecera.
Ao entrar em um elevador,
deu com quem? Três ‘colegas’,
que o olhavam fixamente. Agora,
estava ‘frito’. Acompanhou-os
até uma sala, hermeticamente
fechada. O chefe o observava,
mas nada disse. Sentou-se
em uma poltrona, ao lado de
um ‘colega’. Este o encarava.
Ele suava frio. O cara enfiou
a mão em um coldre,
escondido sob o casaco e sacou
um revolver. Sem dizer nada,
segurou a sua mão esquerda.
Ele fechou os olhos. Ouviu
um estampido. Sentiu uma dor
crescendo na mão. Mas
preferiu não olhar.
Observou, com assombro, que
sobre as costas da sua mão
direita havia escamas verdes,
como se ele fosse um inseto.
Não eram apenas escamas,
mas pequenos órgãos
que formavam um conjunto harmonioso
e continuavam pelo braço
acima. Criou coragem e olhou
para a sua mão esquerda.
Faltava um dedo, de onde escorria
sangue espesso, de um vermelho
escuro. Ela também
apresentava as mesmas ‘escamas’.
Dois ‘colegas’ se aproximaram
dele e o conduziram, trôpego,
cambaleante, à uma
outra sala, onde uma enfermeira,
também com um olhar
duro, estancou o sangue que
escorria da sua mão
e fez um curativo, após
dar alguns pontos; tudo, obviamente,
sem anestesia.
Em pânico, correu ao
banheiro, tirou o paletó,
a gravata, a camisa. Nas suas
costas, via também
os mesmos órgãos
verdes. Seria um processo
de transformação?
O chefe e os outros membros
do grupo entraram também
no banheiro. Ele observou
as suas mãos: todos
eles traziam as mesmas ‘escamas’
verdes nas costas das mãos.
Estarrecido, saiu dali. Eles
apenas o observaram, sem dizer
nada. Saiu da sala, cuja porta
fora aberta, desceu pelo elevador,
saiu do prédio, ganhou
a rua. Fez sinal para um táxi,
que parou, ele entrou e se
dirigiu para a sua casa.
Ao chegar, abriu a porta e
procurou por sua mulher, sua
companheira de tantos anos.
Ela estava no quarto de ambos.
Aproximou-se dela, suando
em bicas, sua expressão
era de pânico. Ela sentou-se
na beira da cama. Continuava
bela, apesar da idade, quase
50 anos. Ele não sabia
o que dizer. Ela o observava,
aparentando calma. Ele não
imaginava como ela reagiria
quando se deparasse com o
seu ‘estado embrionário’.
Ela continuava observando-o,
sem nada dizer, enquanto ele
se despia.
Abilio
Terra Junior
16/06/2010