Uma
Crônica Inviável
Naquele
tempo, diversos se reuniram
para escrever uma crônica,
uma crônica inviável.
Ele participou, relutante
a princípio, depois
se lembrou aos poucos de detalhes,
que haviam se perdido ao longo
do tempo. Como sempre, tudo
começou com um sonho.
No sonho, surgiram cenas nítidas,
e a crônica, que era
longa, tomava forma, se consolidava,
como uma construção
que surge do nada. Encontrou-se
com pessoas que não
via há tempos, como
eram naquela época,
como se o tempo houvesse parado.
E, no sonho, a crônica
tomava corpo, adquiria vida,
se desenvolvia ao longo de
diversas versões, era
sólida. À medida
que acordava, começavam
a surgir perguntas e dúvidas.
Afinal, percebia que tudo
não fora tão
sólido assim, e, construir-se
apenas dados cronológicos
e citações de
nomes seria uma tarefa burocrática,
a seu ver. Ou vários
depoimentos soltos...
Mas no sonho era tão
sólida, tudo fazia
sentido... Percebia uma semelhança
com a sua vida, a sua vida
onírica, surreal, e
a sua vida no palco da realidade,
em que as peças do
jogo se misturavam, caiam
ao chão, talvez até
se perdessem. Isso tudo, a
despeito de tentar perceber
um sentido lógico.
Haveria? Aquele desmoronar
não seria parte de
um todo maior, além
do seu alcance? Mal comparando,
como um peixe que vê
a ponta de um dedo que mergulha
na água, mas é-lhe
impossível perceber
todo o corpo do qual o dedo
é uma parte.
Grandes transformações
se processavam na Terra e
nos indivíduos, mas
a percepção
dependeria em suma, do nível
de consciência ou de
autoconhecimento de cada participante,
nos eventos que se produziam.
Ele, em suas diversas ‘línguas’,
não sabia o que dizer,
ficava mudo, era uma torre
de Babel em carne e osso,
e em alma. A torre de Babel,
uma figura mítica que
retratava o nosso mundo. Milhares
de línguas, muitas
delas desaparecendo. Alguns
procuravam preservá-las.
No sentido figurado, então,
nem se fala. Alguém
se entende, de início,
a si mesmo, e depois, com
alguém?
Daí o ‘sentido’ da
linguagem poética,
da surreal, do mito (no seu
sentido original), da dança,
da pintura abstrata, da música.
Era o seu mundo predileto,
o mundo que foge ao ‘realismo’,
uma palavra dúbia,
a seu ver, e que, nos seus
meandros, muitas vezes, surpreendentes,
corresponde muito mais a um
todo, que nos escapa dentre
os dedos, da nossa palavra
de senso comum, do nosso dia
a dia, da nossa vã
pretensão de abarcar
uma ‘realidade’ intraduzível,
abrangente, multidimensional.
Lembram-se do ‘realismo fantástico’
de Louis Pauwels e Jacques
Bergier? Daí surgiu
a revista Planeta, que ele
colecionava, há muitos
anos atrás. Isso, para
não falar de um conhecimento
que vem do passado, no Sufismo,
no Oriente, no Gnosticismo,
no Ocidente. Isso para não
falar de Krishnamurti, o ‘Messias
Relutante’, que dizia que
ninguém deveria segui-lo,
cada um deve descobrir a sua
própria verdade, lá
bem dentro de si mesmo.
Abilio Terra Junior
29/01/2010