A
Poesia de Abílio Terra
Júnior
Acabo de ler, embevecido,
“Esta Lua Pedregosa”,
último livro de Abílio
Terra Júnior, poeta
que conheci em 2003, durante
um Encontro de Escritores,
na bucólica estância
hidromineral de Cambuquira.
Apesar de nossos encontros
e falas apenas sazonais, Abílio
despertou-me pela intensidade
da sua produção:
mantém uma página
literária virtual,
onde divulga seus poemas,
crônicas, contos e até
mesmo romance. Mas alertou-me
muito mais por ser um poeta
sensível, o que, se
aparenta ser paradoxal, na
verdade não passa de
uma feliz constatação,
diante do tecnicismo que emoldura
a tendência poética
atual.
“Esta Lua Pedregosa”, não
veio para revolucionar escolas
ou definir correntes. Nem
é um livro garantidor
de paixões pró
ou contra. É uma coletânea
de poemas que se apresenta
como acomodadora de sensibilidades,
definindo um momento genuíno
de boa poesia.
Como o autor, a poesia de
Abílio é serena.
Transparente como suas definições.
De luz boa. Daquelas que amanhecem,
entardecem e anoitecem, sensibilizando
as palavras, tornando-as confidentes
e até mesmo coniventes.
Doma, de forma sutil, o sentimento,
acomodando-o ao verbo, sem
virtuosismos, mas com muita
alma.
Os temas de Abílio
são os humanos, sem
as jactâncias do lugar
comum. Vão do histórico
às confidências;
dos questionamentos às
respostas da despretensão;
da ironia fina a uma amargura
domada, que nunca recomenda
decadência.
Com o mesmo sarcasmo contido
que o autor pergunta
“...
os juízes permitirão
que nos amemos?
É
capaz de recomendar, com a
densidade de um grande momento
poético:
“...não
ainda não
no curso
minúsculo
tombam
as sardas
pingentes
em uma escala
gotícula
ósculos
nobres
corrimentos
lácteos
se salvam
então
no primeiro
ano
fibrilas
pulsáteis
fluidos
orgânicos”.
Da mansidão aparente
do poeta, brotam momentos
antológicos, às
vezes quase eróticos,
às vezes quase lascivos.
E ele romanceia:
“...em
suas nádegas
suava
a poesia...
ou
“...que
jeito
de avelã
quando cruzava
suas coxas...”
ou ainda,
“...corpos
que tangem guitarras
ao manto de um dia que não
nasceu
bocas simples escritas como
lápides curtas
louvam amores desconhecidos
naquele tom sustenido”.
São
bons momentos poéticos
que, oscilando entre as possibilidades
de temas, preservam, como
unidade a sensibilidade. Em
poemas como “Primavera” o
leitor chega a assustar-se,
quando constata na primeira
estrofe: “primavera/como tu
és bela/ com acordes
de violino/rumo à janela”
e decepciona-se momentaneamente
pelo lugar comum do tema e
pela pobreza das rimas. Intencional,
pouco depois o poeta assusta-nos,
quando reconhece que “...
da terra sobe um calor trêmulo/
que lambe as pernas úmidas
das mulheres/que guardam consigo
o segredo/ e enrubescem e
ajustam as calcinhas/sob as
calças jeans e as saias”.
Com “Esta Lua Pedregosa”,
Abílio Terra Júnior
acrescenta à moderna
poesia mineira uma contribuição
ímpar, que deverá
marcar o cenário das
nossas novas propostas literárias.
Cruzília, 1º de
setembro de 2006.
Adolfo Maurício Pereira